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{Bom de ler} Troca-letras

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Troca-letras

“Vovô, você é midículo e desagadável!“
“Como é, Luiza?”
“Você, vovô, é midículo e desagadável!”
Íamos os dois no carro, ouvindo as musiquinhas dela, então com 2 anos e meio, eu provavelmente cantarolando junto, o que ela jamais aprovou.
“Lulu, quem disse isso pra você?”
“A vovó Susi.”

Imediatamente liguei para ela pelo viva-voz e quando perguntei se de fato tinha sido a autora de tamanha infâmia, só ouvi uma gargalhada do outro lado.
“Imagina, eu nunca disse isso.”

Eu olhava a pequena pelo retrovisor e só a via afirmando o que dissera com a cabecinha, desmentindo a avó do outro lado da linha, mas se recusando a falar com ela.

Quando, enfim, desliguei, falei em alto e bom som, triunfante: “Viu só, a vovó disse que não falou nada”.

E ouvi, baixinho, da cadeirinha colada no banco de trás: “É, mas falou”.

Se uma criança tão pequena consegue ser desconcertante assim pela capacidade de ser taxativa a esse ponto, consegue, também, se revelar consciente de suas dificuldades de maneira comovente.

E esta aconteceu 20 dias atrás. Julia, 3 anos e meio, me recebeu em sua casa contando excitada que “o pato da Luiza caiu”.

“Caiu no lago?”, perguntei. E a vi fazer uma carinha entre o desânimo e a perplexidade.
“Não esse pato, vovô, o pato.”
“Ah, o prato?!”
E ela me olhou com a carinha mais angelical deste mundo, suplicando por compreensão: “Vovô, eu não sei falar como vocês”.
Quase a sufoquei de tanto apertar e beijar.

O linguajar surpreende, o vocabulário é gigantesco por causa dos estímulos que aparecem de todos os lados e os errinhos precisam ser cada vez mais guardados, porque se a pequena adola suco de macarujá, a maior, campeã de trava-línguas, dia desses quis brincar comigo do jogo das síbalas.

Desnecessário dizer que não é aconselhável falar com os pequenos no tatibitate deles, mas também não me parece razoável viver corrigindo seus errinhos.

Corrigir mesmo basta uma vez e fico pasmo como as duas já não dizem “pra mim fazer” e a frequência com que revelam querer falar a palavra certa e não saber como, muitas vezes esperando que alguém as socorra.

Sem nunca esquecer que se há uma língua cheia de armadilhas, essa é a nossa inculta e bela última flor do Lácio.

Juca Kfouri é jornalista esportivo, pai de quatro filhos e avô orgulhoso
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{Bom de ler} Um avô para duas netas

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Um avô para duas netas

Quando Julia nasceu, Luiza já reinava sozinha havia três anos. Primeira tudo, como reinava!

Lembro-me que depois da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, fui ao programa do Jô e o assunto ‘neta’ surgiu, certamente provocado por ele, porque sou um avô discreto.

Enquanto tirava da carteira algumas fotos dela, então com 1 ano e meio, contei ao Jô que Luiza não tinha nem bem três horas de vida quando a peguei no colo na maternidade e ouvi dela, surpreso, infelizmente sem testemunhas, porque estávamos só nós dois no berçário: “Vovô querido, te amo”.

Jô, entrevistador experiente, que já viu e ouviu muita coisa, balbuciou: “Eu acredito”. Ora, é claro, se não tivesse certeza de que ele acreditaria, eu não teria contado. Sei que parece inacreditável, mas o fato é que quando Luiza tinha cólica, o único colo em que ela dormia era o meu.

Eu a punha deitada no meu peito e sentia seu corpinho relaxando aos pouquinhos até adormecer. E babar. Babar gloriosamente na minha camisa, camiseta, paletó, suéter, no que fosse, para minha alegria, já que, depois, passava o resto do dia sentindo o seu cheirinho.

Primeira filha, primeira neta de cinco avós, primeira sobrinha de cinco tios, meiga e extremamente carinhosa, ninguém tinha muitas dúvidas sobre como Luiza receberia uma irmã. E quando Julia chegou, ela era das mais felizes da família, encantada com o bebezinho que queria porque queria pegar no colo.

Mas não eram poucos os que tinham dúvidas sobre como Julia seria tratada, diante da veneração aparentemente monopolizada que Luiza despertava.

Pois Julia soube se impor e conquistar seu espaço ainda antes mesmo de falar, sapeca ao extremo, sedutora até onde pode ser. E briguenta. Se sua vontade não prevalece imediatamente, cruza os bracinhos, faz beiço, diz que “tô bava”, “não sou mais sua amiga”, “nunca mais venho na sua casa”.

Em compensação, é capaz de numa hora de despedida depois do fim de semana juntos, perguntar, assim sem dar muita importância, sem nem olhar, como se fosse a coisa mais natural do mundo: “Vovô, você vai sentir muita saudade de mim?”

A resposta, é claro, ela está cansada de saber, porque os cinco dias úteis da semana hoje em dia não servem para outra coisa senão para separar os ansiados sábados para recebê-las.

E os sábados que tratem de durar muito antes do domingo, dia de devolvê-las.

Juca Kfouri é jornalista esportivo, pai de quatro filhos e avô orgulhoso.

{Bom de ler} Avô também educa

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Sumiço de ontem: dor de garganta e febre… justifica? rs. Mais uma coluna inspiradora!

Essa me lembra MUITO meu avô querido… que cuidava de mim para meus pais descansarem e aproveitarem em Caraguatatuba quando era novinha… muitas saudades…

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Avô também educa

Era a planejada viagem da família toda com a primeira netinha de pouco menos de 2 anos.

Destino: a Casa do Lago, a cerca de duas horas e meia de São Paulo. Um fim de semana comprido. E sonhado.

Na manhã seguinte à primeira noite, ali pelas 6h30, porque a menina tinha hábitos espartanos, o avô se posicionou embaixo da janela do quarto em que ela dormia com os pais, à espera de ouvi-la acordar e, generosamente como os avôs estão habituados a se comportar, se oferecer para pegá-la, dar a mamadeira, o café da manhã e sair para passear de charrete, com o que os pais poderiam continuar descansando, trabalhadores eméritos que são.

Eis que, de repente, não mais, o avô ali quieto, sentadinho, quase tirando um restinho de soneca, ouve aquela vozinha (não confundir com vovozinha), balbuciar acordando: “Cadê o vovô?”.

Que não aguenta e se trai, ao rir mais alto do que devia.

Foi o bastante para a janela ser aberta imediatamente naquela manhã luminosa de tão ensolarada e o avô babão ser pego em flagrante, tentando se escafeder, pela nora, ainda sonolenta. Mas era tarde.

Deu para ouvir, “quase” envergonhado: “Seu pai tava aí, na janela.”
“Como?!”.

Coisas que só os vovôs e as vovós espalhados pelo mundo sabem digerir numa boa.

Daí o “quase” envergonhado porque, na verdade, não havia, nem houve, nem haverá motivo algum para se envergonhar de um ato que nada tinha a ver com espionagem, mas apenas com vontade de brincar e de ajudar, nesta ordem, sem disfarces, francamente!

Na correria da vida moderna, se meus pais já foram duas mãos nas quatro rodas de tanto que me ajudaram e foram solidários e carinhosos, mais ainda temos de ser em relação aos netos e filhos hoje em dia.

E sem essa de que avós não têm de educar e que o dia de estar com netos é gostoso duas vezes, quando eles chegam e quando vão embora, porque não é nada disso: quem ama põe limites, por mais que avós possam transgredir aqui e ali o rigor dos pais; e a hora de ir embora faz parte, é obrigatória, mas nada tem de gostosa.

Se o instinto de proteção em relação aos filhos nos acompanha a vida toda, não é exagero dizer que em relação aos netos é em dobro.

Porque se nos melhores momentos de relacionamento com filhos nunca esquecemos que a vida tem que seguir, com netos a vontade que dá é a de que a vida pare, congele, para sempre.

Juca Kfouri é jornalista esportivo, pai de quatro filhos e avô orgulhoso