{Bom de ler} Um avô para duas netas

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Um avô para duas netas

Quando Julia nasceu, Luiza já reinava sozinha havia três anos. Primeira tudo, como reinava!

Lembro-me que depois da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, fui ao programa do Jô e o assunto ‘neta’ surgiu, certamente provocado por ele, porque sou um avô discreto.

Enquanto tirava da carteira algumas fotos dela, então com 1 ano e meio, contei ao Jô que Luiza não tinha nem bem três horas de vida quando a peguei no colo na maternidade e ouvi dela, surpreso, infelizmente sem testemunhas, porque estávamos só nós dois no berçário: “Vovô querido, te amo”.

Jô, entrevistador experiente, que já viu e ouviu muita coisa, balbuciou: “Eu acredito”. Ora, é claro, se não tivesse certeza de que ele acreditaria, eu não teria contado. Sei que parece inacreditável, mas o fato é que quando Luiza tinha cólica, o único colo em que ela dormia era o meu.

Eu a punha deitada no meu peito e sentia seu corpinho relaxando aos pouquinhos até adormecer. E babar. Babar gloriosamente na minha camisa, camiseta, paletó, suéter, no que fosse, para minha alegria, já que, depois, passava o resto do dia sentindo o seu cheirinho.

Primeira filha, primeira neta de cinco avós, primeira sobrinha de cinco tios, meiga e extremamente carinhosa, ninguém tinha muitas dúvidas sobre como Luiza receberia uma irmã. E quando Julia chegou, ela era das mais felizes da família, encantada com o bebezinho que queria porque queria pegar no colo.

Mas não eram poucos os que tinham dúvidas sobre como Julia seria tratada, diante da veneração aparentemente monopolizada que Luiza despertava.

Pois Julia soube se impor e conquistar seu espaço ainda antes mesmo de falar, sapeca ao extremo, sedutora até onde pode ser. E briguenta. Se sua vontade não prevalece imediatamente, cruza os bracinhos, faz beiço, diz que “tô bava”, “não sou mais sua amiga”, “nunca mais venho na sua casa”.

Em compensação, é capaz de numa hora de despedida depois do fim de semana juntos, perguntar, assim sem dar muita importância, sem nem olhar, como se fosse a coisa mais natural do mundo: “Vovô, você vai sentir muita saudade de mim?”

A resposta, é claro, ela está cansada de saber, porque os cinco dias úteis da semana hoje em dia não servem para outra coisa senão para separar os ansiados sábados para recebê-las.

E os sábados que tratem de durar muito antes do domingo, dia de devolvê-las.

Juca Kfouri é jornalista esportivo, pai de quatro filhos e avô orgulhoso.
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